Amy era uma garota estranha, essa era a única certeza de Gregori. No fundo sentia uma certa pena dela, abandonada poucas horas depois de seu nascimento, na porta de um orfanato. Criada por mulheres cujo sofrimento descontavam nas crianças, ainda mais na pequena Amy, a menina de cabelos desgrenhados e olhos esbugalhados.
Gregori não sabia o que tinha de errado com ela, que sempre andava de cabeça baixa, mal vestida, exibindo sempre aquele olhar estranho. Por mais que agisse como um gatinho acuado, seus olhos sempre estavam encharcados de raiva.


Se alguém esbarrasse nela e derrubasse seus livros, ela nada diria, mesmo que o ato fosse proposital. Se caçoassem dela, nada falaria, se abaixassem sua saia no corredor apinhado de gente, seu rosto não se contorceria. Toda a maldade, Amy suportava calada, com aquele olhar estranho… Às vezes Gregori achava que ela era uma bomba relógio, prestes a explodir.
Ele a estudava de longe, calado, fascinado com o jeito como ela lhe dava com os valentões. Gregori não era como os outros garotos, que queriam jogar futebol, ele queria estudar a mente humana e seus comportamentos, e Amy era seu objeto de estudo.
Para entender o presente de Amy, Gregori tentou entender seu passado. Procurou o orfanato onde a menina viveu grande parte da vida, mas só encontrou ruínas. Um incêndio o destruiu.
— O que aconteceu aqui? — perguntou o garoto para uma moça que deixava flores sobre os escombros.
— Um incêndio. Como você deve perceber.
— Mas e qual a causa?
— Vou lhe contar o que sei, garoto. Minha irmã trabalhava aqui, ela não era uma santa, odiava as crianças, mas não merecia ter morrido queimada. Dizem que foi um curto-circuito, mas eu sei que não foi. Desde que aquela estranha, a garota Amy, chegou, coisas estranhas começaram a acontecer. Luzes piscando, objetos se movendo, pessoas se machucando. Por mim, foi ela que se cansou deste lugar e o botou para baixo.
— Como pode ter certeza que foi ela?
— Ela foi a única sobrevivente. Sem nenhum arranhão. — dito isso, a mulher parte.
Gregori sabe que Amy agora tinha uma família adotiva, e quando os visitou, sentiu medo em seus olhares. Os animais da vizinhança agiam de modo estranho perto dela, disse o pai, e todos os bichinhos que cruzam o quintal, morrem misteriosamente.
Ele teve medo de Amy, talvez sua própria mãe biológica tinha, pois a abandonou logo depois que a viu pela primeira vez. Havia algo de estranho nela. Não só nela, mas em como as pessoas que a maltratavam se machucavam, como Jonny do time de natação que quase morreu afogado quando a raia da piscina prendeu em seu pé, ou como Olivia das líderes de torcida quebrou o tornozelo dançando.
Naquela manhã Gregori teve medo de entrar no ônibus escolar, pois Amy estaria nele. Tentou distrair-se com a paisagem, foi quando percebeu que a habitual paisagem de sempre estava diferente. O motorista estava pegando outra estrada.
— Por que mudamos o caminho? — pergunta Jonny.
— Eu não sei! Não estou no controle! — grita o motorista.
— Como assim não está no controle? — pergunta Olivia, o motorista ergue as mãos para exibir um volante se mexendo sozinho — Freie! Para o ônibus!
— Não consigo!
O pânico se instalou. A velocidade do veículo aumentou enquanto subiam uma colina, acompanhado do grito estético das meninas. Jonny tenta pular uma janela, mas ela desaba sobre seu pescoço, decapitando-o.
Uma risada estética ecoa pelo ônibus, era de Amy.
— É ela que está fazendo isso! — grita Olivia — matem-na!
Ninguém encosta um dedo nela, pois são presos aos bancos pelos cintos de segurança. Os olhos da garota ficam completamente pretos, talvez ela não tivesse um problema cerebral, pensou Gregori, ela não era humana. Talvez fosse algo demoníaco. A risada da garota estranha, acompanhada dos gritos é a última coisa que Gregori, e qualquer um naquele ônibus escutam na vida.
A bomba relógio havia explodido, cansada da zoação diária, e agora conduzia o ônibus para seu fim, atirando-o em uma ribanceira, o chão distante aproximou-se rapidamente. Gregori nada sentiu, a explosão matou a todos instantaneamente. Todos que um dia caçoaram de Amy e uns poucos que eram efeitos colaterais, como Gregori, que foi morto pelo seu objeto de estudo.

Dizem que quem passa pelo local do acidente pode ouvir os gritos da crianças, como um eco de morte.
Um único corpo não foi encontrado no local do acidente, o da estranha Amy. Talvez ela continue perambulando por aí…

 

Escrito por Letícia de Pinho da Silva
Sou escritora de alma e coração. Tenho 22 anos, e muita vontade de cursar letras. Tenho o canal e blog, Mundo de Fantasias, e possuo um sério problema: amo séries, livros e filmes mais do que o normal.