O vento soprou do lado de fora da janela. Acordei assustada, a camisola presa ao corpo por causa do suor. A primeira coisa que fiz foi olhar debaixo da cama, um gesto ao qual eu já estava acostumada — apesar de ter dezessete anos, agia naqueles momentos como se tivesse dez. Não havia nada ali, suspirei e joguei-me na cama.

Fazia mais de uma semana que o mesmo sonho me perturbava, sempre às três horas da madrugada, à hora em que nosso corpo está mais vulnerável aos espíritos.

No sonho eu percorria uma longa distância em uma floresta escura e densa, era impossível ver a lua. O estranho era que eu fugia de alguém. Alguém não, de alguma coisa que me perseguia. Eu procurava desesperadamente o caminho de volta para casa, mas nunca o encontrava.

E aquela coisa me perseguia e perseguia, e perseguia, sem descanso, sem parar para tomar fôlego. Todas as noites eu me perguntava o que era aquilo, e a resposta em minha mente era clara. É um monstro. Por isso que todas as vezes que acordo com o coração acelerado por conta do pesadelo, procuro debaixo de minha cama o tal monstro, e nunca o encontro.

Mas essa noite eu vi a face do monstro, a pele era avermelhada, o rosto parecia tão humano, os lábios carnudos, o nariz pontudo, os olhos grandes… Ah, os olhos! Parecia que a pupila era um vírus, que havia dominado todo o olho, alastrando sua cor negra por toda a extensão, passando pela íris e tomando toda a esclerótica.

Ele vestia uma capa preta acompanhada de um capuz, que escondia grande parte de seu rosto. Do mesmo modo que seu corpo era todo escondido pela capa, a única coisa que pude ver, era um corpo que não era nem magro, nem gordo, mas sim algo entre os dois. Eu o chamava de o homem das sombras, não apenas porque tudo nele era sombrio, mas porque em meus sonhos ele ficava nas sombras, como se escondesse nelas.

Meu coração aos poucos foi desacelerando, retornando a um ritmo calmo e lento. Deixei meus pensamentos perturbados de lado, tentando voltar a dormir, mas aqueles olhos não abandonavam minha mente. Eu estava assustada, sentia um medo que nunca senti antes, ainda mais porque eu sabia que de algum modo, alguns sonhos meus eram reais. Não exatamente reais, mas sim premonições.

Uma noite sonhei que minha cachorra estava dando a luz, e nós nem mesmo sabíamos que ela estava grávida, afinal ela sempre foi meio obesa, a questão é que no dia seguinte acordei com mais quatro poodles em nossa casa. Mas esse era um sonho bom, que não me causava arrepios, os que faziam minha coluna vertebral vibrar eram os ecos de morte.

Eu sonhei que meu colega morria em um acidente de carro, no outro dia não tivemos aula em respeito a sua memória. Ou quando sonhei que minha casa havia sido assaltada e minha cachorra morria com um tiro, defendo minha família.

E se não bastasse sonhar com pessoas conhecidas, eu sonhava com pessoas que nunca havia visto na vida, no outro dia via suas faces em noticiários ou nos jornais. As vezes eu via coisas que as outras pessoas não podiam ver…

Uma batida na porta fez meu coração vibrar, a porta abriu-se lentamente, uma figura feita de sombras começou a tomar forma, de repente meus pulmões não sabiam mais como respirar. Dei um grito quando ouvi uma voz, demorei um tempo para perceber que era apenas minha irmã, pedindo para dormir comigo. Não foi fácil mandar o coração se aquietar depois do susto.

Acordei cedo na manhã seguinte e levei minha irmã para seu quarto, sem acordá-la. Depois de um banho demorado me arrumei para o colégio. Dispensei o ônibus hoje por dois motivos, eu teria que esperar por ele quinze minutos, e eu precisava caminhar e aliviar meus pensamentos. Comecei minha caminhada com um vento frio batendo em minha face, jogando meus cabelos contra meu rosto.

A cidade ainda estava adormecida, por algum motivo desconhecido. Caminhava por ruas vazias, e parecia que ao invés de clarear, estava voltando a escurecer. A cada passo que eu dava a escuridão aumentava um pouco mais.

Ouvi passos atrás de mim, logo me virei, esperando ver a primeira pessoa do dia, mas não encontrei ninguém, estranho, parecia tão próximo de mim. Voltei a caminhar, pensando que aquilo era tudo fruto de minha imaginação.

A alguns quarteirões perto do colégio ouvi novamente os passos, e mais uma vez me virei para trás, mas dessa vez eu vi alguma coisa.

Ali, no meio do parquinho havia uma pessoa nas sombras, escondida. Não, ela não estava escondida nas sombras, as sombras emanavam dela, saindo de seu corpo e contaminando tudo ao seu redor, era por isso que o dia não estava amanhecendo, aquela pessoa estava criando uma escuridão sobre a cidade.

Aquela pessoa? Tem certeza que era uma pessoa?

Ao pensar nisso, longas garras saíram de seus dedos, mesmo à distância elas pareciam afiadas e perigosas, o medo começou a se despertar em mim. Por um tempo fique parada, incapaz de me mover, apenas fitando aquele homem, por um momento pensei que fosse ele que atormentava meus sonhos.

Mais sombras saíram por suas garras, mas essas ao invés de se misturar com o céu, vieram em minha direção, como uma fumaça negra. Não sei como desgrudei meus pés do chão, só sei que consegui correr a toda velocidade em direção a escola.

Ela ainda estava vazia, o que deixava um ar sombrio pairando na atmosfera, desajeitada e com a mão tremendo, abri a pesada porta do prédio, fechando assim que passei, mantendo o peso de meu corpo contra ela. Senti um baque na porta quando as sombras bateram nela, mas aos poucos a força foi diminuindo até parar.

Abri lentamente a porta, espiando do lado de fora, nenhum sinal do homem, nenhum sinal das sombras. Suspiro aliviada, olho para os corredores e todo meu corpo paralisa novamente. Eu não estava sozinha. Havia uma multidão de pessoas mortas ao meu redor. Como eu sabia que estavam mortas? Porque eu via sua pele seca em volta dos ossos, roupas rasgadas, pés flutuando a pelo menos meio metro do chão, mesmo não tendo olhos, sabia que me encaravam, com seus buracos escuros e vazios onde antes havia um par de olhos.

As mãos ossudas com pele apodrecida caída para o lado vinham em minha direção, deixei meu corpo escorregar para o chão enquanto gritava com todo o ar que havia em meus pulmões. Os mortos se aproximavam, mais e mais, fechei meus olhos esperando meu fim, mãos tocaram meu ombro…

Uma voz pediu para me acalmar e abrir os olhos, vejo minha melhor amiga a poucos centímetros de mim, olho para todas as direções e a única coisa que vejo são adolescentes rindo da garota que viu os mortos.

Deixo os risos de lado e corro até o banheiro feminino, me escondo lá até o sinal tocar. Agarro meus livros e sigo para minha aula com todos me encarando. A professora dizia algo sobre placas tectônicas e terremotos, mas eu nem sequer prestava atenção, fitava meu livro de geografia para evitar o olhar que todos na sala tinham sobre mim: A garota surtou.

Uma gota vermelha começa a se formar nas dobras do livro, a encaro curiosa. Toco meu nariz, pensando que talvez estivesse sangrando, mas estava seco. Observo atentamente a gota vermelha, que só podia significar uma coisa: Sangue. Ela começou a alastra-se, preenchendo todo o livro, olho para meus colegas mas eles não viam a mesma coisa que eu. O sangue começou a pingar no chão e a percorrer cada canto da sala.

Olhei de um lado para o outro, vendo o sangue tomar conta de tudo ao meu redor, transformando as pessoas em vermelho e fazendo a luz do sol tornar-se negra como a noite. Sinto o coração martelar no peito tão forte que doía, não podia gritar, isso só faria os outros me taxarem de louca. A respiração tornou-se rápida, as pupilas dilataram e toda célula do meu corpo me mandava correr, até que não tive mais a chance…

Uma mão vermelha saiu do livro e agarrou meu pescoço, tentei me soltar mas o aperto era muito forte. Meus pulmões imploravam por ar, xingando-me por privá-lo do seu bem mais precioso. Tento tirar os dedos de meu pescoço mas é inútil. A visão começa a escurecer, sei que estou caindo no esquecimento da morte.

Mãos me sacodem e de repente tudo desaparece, vejo minha professora preocupada, achando que estava tendo algum tipo de ataque. Quando ela perguntou o que eram as marcas roxas em meu pescoço, soube que aquilo não era alucinação, era verdade.

Levanto de um salto da cadeira, fazendo-a cair para o lado, corro para fora do colégio, eu queria voltar para casa, mas os mortos estavam em toda a parte de novo, bloqueando todos os caminhos possíveis, exceto um. O caminho que levava a floresta.

Corri naquela direção, a floresta atrás da escola nunca foi muito grande, e nem muito densa, mas naquele dia ela estava maior, as árvores pareciam se mover, aproximando-se mais e mais, tornando-se a floresta de meu sonho.

Sei que os mortos não estavam mais me seguindo, mas eu sentia uma presença atrás de mim, e eu não precisava me virar para saber quem era, o homem das sombras. Corria como corria todas as noites em meus sonhos, fazendo meus pés voarem pela mata selvagem, correndo pela minha vida.

A presença se aproxima, ela estava mais rápida do que eu me lembrava, forcei meu corpo a não olhar para trás, não cederia ao medo, se ele me quisesse, teria que me alcançar e eu não daria a chance disso acontecer.

Não via mais a luz do sol, tudo ao meu redor era escuridão, e para onde quer que eu corresse, não encontrava o final da floresta. Os pássaros não cantavam uma doce melodia, pareciam cantar um hino fúnebre, e a floresta parecia estar preparando meu caixão. Ele estava mais próximo, eu sentia, até que finalmente ele me alcançou.

Fui jogada para trás, olhei para a figura em minha frente, de costas para mim, envolta em um manto negro e escondida nas sombras. Quando ele se virou em minha direção soube o que ele era: Um demônio.

Naquela dia, perdida em uma floresta infinita, ouvindo os pássaros celebrarem e as árvores rangerem. Naquele dia ele finalmente havia me alcançado, e eu encontrei a minha morte.

Escrito por Letícia de Pinho da Silva
Sou escritora de alma e coração. Tenho 22 anos, e muita vontade de cursar letras. Tenho o canal e blog, Mundo de Fantasias, e possuo um sério problema: amo séries, livros e filmes mais do que o normal.